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eso1735pt — Nota de Imprensa Científica

ALMA descobre poeira fria em torno da estrela mais próxima

3 de Novembro de 2017

O observatório ALMA no Chile detectou poeira em torno da estrela mais próxima do Sistema Solar, Proxima Centauri. Estas novas observações revelam o brilho emitido pela poeira fria numa região situada a uma distância da Proxima Centauri entre uma a quatro vezes a distância entre a Terra e o Sol. Os dados apontam também para a presença de uma cintura de poeira mais exterior e ainda mais fria, o que poderá indicar a presença de um sistema planetário elaborado. Estas estruturas são semelhantes às cinturas maiores do Sistema Solar, estimando-se que sejam igualmente constituídas por partículas de rocha e gelo que não conseguiram formar planetas.

A Proxima Centauri é a estrela mais próxima do Sol. Trata-se de uma anã vermelha situada a apenas 4 anos-luz de distância na constelação austral do Centauro. Em sua órbita encontra-se um planeta temperado do tipo terrestre, Proxima b, descoberto em 2016, o planeta mais próximo do Sistema Solar. No entanto, este sistema revela-se agora muito mais complexo. As novas observações ALMA mostram radiação emitida pelas nuvens de poeira cósmica fria que rodeiam a estrela.

O autor principal deste novo estudo, Guillem Anglada [1], do Instituto de Astrofísica de Andalucía (CSIC), Granada, Espanha, explica a importância desta descoberta: “A poeira que rodeia a Proxima Centauri é importante porque, no seguimento da descoberta do planeta terrestre Proxima b, se trata da primeira indicação da presença de um sistema planetário elaborado, e não apenas de um único planeta, em torno da estrela mais próxima do nosso Sol.

As cinturas de poeira são restos de material que não formou corpos maiores, tais como planetas. As partículas de rocha e gelo nestas cinturas variam em tamanho, desde os mais minúsculos grãos de poeira, menores que um milímetro, até a corpos do tipo de asteróides com muitos km de diâmetro [2].

A poeira parece situar-se numa cintura que se estende ao longo de algumas centenas de km para lá de Proxima Centauri e tem uma massa total de cerca de uma centésima da da Terra. Estima-se que esta cintura tenha uma temperatura de cerca de —230 graus Celsius, ou seja, tão fria quanto a Cintura de Kuiper no Sistema Solar exterior.

Os dados ALMA parecem também indicar a existência de outra cintura de poeira ainda mais fria e situada cerca de dez vezes mais longe. Se confirmada, a natureza desta cintura mais exterior é intrigante, dado o meio muito frio onde se encontra, isto é, situa-se muito afastada de uma estrela mais fria e mais ténue que o Sol. Ambas as cinturas encontram-se muito mais longe da Proxima Centauri do que o planeta Proxima b, o qual orbita a apenas 4 milhões de km de distância da sua estrela progenitora [3].

Guillem Anglada explica as implicações desta descoberta: ”Este resultado sugere que a Proxima Centauri possa ter um sistema planetário múltiplo com uma história rica de interações que terão resultado na formação de uma cintura de poeira. Estudos adicionais poderão dar-nos informação sobre as localizações destes planetas adicionais ainda não identificados.

O sistema planetário de Proxima Centauri é também particularmente interessante porque existem planos — projeto Starshot — para a futura exploração direta do sistema por meio de microsondas ligadas a velas impulsionadas a laser. Um conhecimento mais aprofundado da poeira em torno desta estrela torna-se essencial para planear uma tal missão.

O co-autor Pedro Amado, também do Instituto de Astrofísica de Andalucía, explica que estas observações são apenas o início: “Estes primeiros resultados mostram que o ALMA consegue detectar estruturas de poeira em órbita de Proxima Centauri. Observações adicionais dar-nos-ão uma imagem mais detalhada do sistema planetário desta estrela. Combinando estas observações com o estudo de discos protoplanetários situados em torno de estrelas jovens, muitos dos detalhes dos processos que levaram à formação da Terra e do Sistema Solar, há cerca de 4600 milhões de anos atrás, serão desvendados. O que estamos agora a ver é apenas o "aperitivo" comparado com o que ainda está para vir!

Notas

[1] Devido a uma coincidência “cósmica”, o autor principal deste estudo, Guillem Anglada, tem o mesmo nome que o astrónomo que liderou a equipa que descobriu o planeta Proxima b, Guillem Anglada-Escudé, ele também um co-autor do artigo científico que descreve estes resultados, embora os dois não sejam de todo familiares.

[2] A Proxima Centauri é uma estrela bastante velha, com idade semelhante à idade do Sistema Solar. As cinturas de poeira em sua volta são provavelmente semelhantes à poeira residual da cintura de Kuiper e da cintura de asteróides do Sistema Solar e à poeira que dá origem à luz zodiacal. Os discos observados pelo ALMA em torno de estrelas muito mais jovens, como é o caso da HL Tauri, contêm muito mais material que está no processo de formar planetas.

[3] A forma aparente da cintura exterior muito ténue, se confirmada, daria aos astrónomos uma maneira de estimar a inclinação do sistema planetário de Proxima Centauri. Esta forma pareceria elíptica devido à inclinação do que é na realidade um anel circular. Esta estimativa permitiria por seu lado determinar melhor a massa do planeta Proxima b, da qual atualmente se conhece apenas o limite inferior.

Informações adicionais

Este trabalho foi descrito num artigo científico intitulado “ALMA Discovery of Dust Belts Around Proxima Centauri”, de Guillem Anglada et al., que será publicado na revista da especialidade Astrophysical Journal Letters.

A equipa é composta por Guillem Anglada (Instituto de Astrofísica de Andalucía (CSIC), Granada, Espanha [IAA-CSIC]), Pedro J. Amado (IAA-CSIC), Jose L. Ortiz (IAA-CSIC), José F. Gómez (IAA-CSIC), Enrique Macías (Boston University, Massachusetts, EUA), Antxon Alberdi (IAA-CSIC), Mayra Osorio (IAA-CSIC), José L. Gómez (IAA-CSIC), Itziar de Gregorio-Monsalvo (ESO, Santiago, Chile; Joint ALMA Observatory, Santiago, Chile), Miguel A. Pérez-Torres (IAA-CSIC; Universidad de Zaragoza, Zaragoza, Espanha), Guillem Anglada-Escudé (Queen Mary University of London, London, Reino Unido), Zaira M. Berdiñas (Universidad de Chile, Santiago, Chile; IAA-CSIC), James S. Jenkins (Universidad de Chile, Santiago, Chile), Izaskun Jimenez-Serra (Queen Mary University of London, London, Reino Unido), Luisa M. Lara (IAA-CSIC), Maria J. López-González (IAA-CSIC), Manuel López-Puertas (IAA-CSIC), Nicolas Morales (IAA-CSIC), Ignasi Ribas (Institut de Ciències de l’Espai (IEEC-CSIC), Bellaterra, Espanha), Anita M. S. Richards (JBCA, University of Manchester, Manchester, Reino Unido), Cristina Rodríguez-López (IAA-CSIC) e Eloy Rodríguez (IAA-CSIC).

O ESO é a mais importante organização europeia intergovernamental para a investigação em astronomia e é de longe o observatório astronómico mais produtivo do mundo. O ESO é  financiado por 16 países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia e Suíça, assim como pelo Chile, o país de acolhimento. O ESO destaca-se por levar a cabo um programa de trabalhos ambicioso, focado na concepção, construção e operação de observatórios astronómicos terrestres de ponta, que possibilitam aos astrónomos importantes descobertas científicas. O ESO também tem um papel importante na promoção e organização de cooperação na investigação astronómica. O ESO mantém em funcionamento três observatórios de ponta no Chile: La Silla, Paranal e Chajnantor. No Paranal, o ESO opera  o Very Large Telescope, o observatório astronómico óptico mais avançado do mundo e dois telescópios de rastreio. O VISTA, o maior telescópio de rastreio do mundo que trabalha no infravermelho e o VLT Survey Telescope, o maior telescópio concebido exclusivamente para mapear os céus no visível. O ESO é um parceiro principal no ALMA, o maior projeto astronómico que existe atualmente. E no Cerro Armazones, próximo do Paranal, o ESO está a construir o European Extremely Large Telescope (E-ELT) de 39 metros, que será “o maior olho do mundo virado para o céu”.

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Este texto é a tradução da Nota de Imprensa do ESO eso1735, cortesia do ESON, uma rede de pessoas nos Países Membros do ESO, que servem como pontos de contacto local com os meios de comunicação social, em ligação com os desenvolvimentos do ESO. A representante do nodo português é Margarida Serote.

Sobre a Nota de Imprensa

Nº da Notícia:eso1735pt
Nome:Proxima Centauri
Tipo:Milky Way : Star : Circumstellar Material : Planetary System
Facility:Atacama Large Millimeter/submillimeter Array

Imagens

Imagem artística das cinturas de poeira em torno de Proxima Centauri
Imagem artística das cinturas de poeira em torno de Proxima Centauri
A Proxima Centauri na constelação austral do Centauro
A Proxima Centauri na constelação austral do Centauro
A localização da Proxima Centauri no céu austral
A localização da Proxima Centauri no céu austral
O céu em torno de Alfa Centauri e Proxima Centauri (anotado)
O céu em torno de Alfa Centauri e Proxima Centauri (anotado)

Vídeos

ESOcast 136 Light: ALMA descobre poeira fria em torno da estrela mais próxima (4K UHD)
ESOcast 136 Light: ALMA descobre poeira fria em torno da estrela mais próxima (4K UHD)
Vídeo artístico das cinturas de poeira em torno de Proxima Centauri
Vídeo artístico das cinturas de poeira em torno de Proxima Centauri

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