Kids

eso1421pt — Nota de Imprensa Científica

VLT esclarece mistério poeirento

Novas observações revelam como se forma a poeira estelar em torno de uma supernova

9 de Julho de 2014

Um grupo de astrónomos observou em tempo real a formação de poeira estelar - no seguimento da explosão de uma supernova. Mostrou-se, pela primeira vez, que estas fábricas de poeira cósmica fabricam os seus grãos de poeira num processo de duas fases, que começa pouco depois da explosão e continua muito para além desta. A equipa utilizou o Very Large Telescope (VLT) do ESO no norte do Chile, para analisar a luz emitida pela supernova SN 2010jl à medida que esta se desvanecia. Os novos resultados são publicados online na revista Nature a 9 de julho de 2014.

A origem da poeira cósmica nas galáxias é ainda um mistério [1]. Os astrónomos sabem que as supernovas são provavelmente a fonte principal de poeira, especialmente no Universo primordial, no entanto ainda não é claro como e onde é que estes grãos de poeira se condensam e crescem. Não é igualmente claro como é que os grãos de poeira evitam ser destruídos no ambiente inóspito de uma galáxia a formar estrelas. Agora, no entanto, novas observações obtidas com o VLT do ESO no Observatório do Paranal, no norte do Chile, ajudaram a desvendar deste mistério.

Uma equipa internacional de astrónomos utilizou o espectrógrafo X-shooter para observar uma supernova - conhecida como SN 2010jl - nove vezes nos meses que se seguiram à explosão e uma décima vez dois anos e meio depois da explosão, tanto nos comprimentos de onda do visível como no infravermelho [2]. Esta supernova invulgarmente brilhante, resultado da morte de uma estrela massiva, explodiu na pequena galáxia UGC 5189A.

“Combinando dados dos nove anteriores conjuntos de observações pudemos fazer as primeiras medições diretas de como a poeira em torno da supernova absorve as diferentes cores da luz,” disse o autor principal Christa Gall, da Universidade de Aarhus, Dinamarca. “Isto permitiu-nos caracterizar a poeira com mais detalhe do que o que tinha sido possível até agora.”

A equipa descobriu que a formação de poeira começa pouco depois da explosão e prolonga-se durante um longo período de tempo. As novas medições revelaram igualmente quão grandes são os grãos de poeira e qual a sua composição. Estas descobertas estão um passo mais além dos recentes resultados obtidos com o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), o qual detectou pela primeira vez os restos de uma supernova recente - a famosa supernova 1987A (eso1401) - a transbordar de poeira recém formada.

A equipa descobriu que os grãos que têm um diâmetro maior que um milésimo de milímetro se formaram rapidamente no material denso que rodeia a estrela. Embora ainda minúsculos, este tamanho é, no entanto, grande para um grão de poeira cósmica, tornando-os assim mais resistentes a processos destrutivos. Como é que os grãos de poeira sobreviviam no ambiente violento e destrutivo dos restos de supernovas era uma das grandes questões em aberto no artigo que apresentava os resultados ALMA e agora este resultado responde a esta pergunta - os grãos são maiores do que o esperado.

“A nossa detecção de grãos com um tamanho considerável pouco depois da explosão da supernova significa que deve haver uma maneira rápida e eficiente de os criar,” disse o co-autor Jens Hjorth do Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca. “Mas, na realidade, não sabemos exactamente como é que isto acontece.” 

No entanto, os astrónomos pensam que sabem onde é que a nova poeira se formou: no material que a estrela liberta para o espaço ainda antes de explodir. À medida que a onda de choque da supernova se expande para o exterior, cria uma concha fria e densa de gás - exactamente o tipo de ambiente onde os grãos de poeira se podem formar e crescer.

Os resultados das observações indicam que numa segunda fase - depois de várias centenas de dias - ocorre um processo acelerado de formação da poeira que envolve material ejetado pela supernova. Se a produção de poeira na SN 2010jl continuar a seguir a tendência observada, 25 anos depois da supernova explodir a massa total de poeira será cerca de metade da massa do Sol; ou seja, semelhante à massa de poeira observada noutras supernovas como por exemplo a SN 1987A.

“Anteriormente tínhamos dois factos bastante discrepantes: os astrónomos observavam bastante poeira nos restos de supernova deixados depois das explosões mas, por outro lado,  encontravam apenas evidências da formação de pequenas quantidades de poeira nestas explosões. Estas novas observações explicam como é que esta aparente contradição pode ser resolvida,” conclui Christa Gall.

Notas

[1] A poeira cósmica consiste em grãos de silicatos e carbono amorfo - minerais que são também abundantes na Terra. A fuligem do pavio de uma vela é muito semelhante à poeira cósmica de carbono, embora o tamanho dos grãos de fuligem seja dez ou mais vezes maior que o tamanho típico dos grãos cósmicos.

[2] A luz desta supernova foi pela primeira vez observada em 2010, como se pode constatar pelo nome SN 2010jl. Esta supernova está classificada como uma supernova do Tipo IIn. As supernovas classificadas como sendo do Tipo IIn resultam da explosão violenta de uma estrela massiva, com pelo menos oito vezes a massa do Sol. O subtipo "n" do Tipo IIn - “n” significa estreito (narrow em inglês) - denota supernovas que apresentam riscas estreitas de hidrogénio no seu espectro. Estas riscas resultam da interação entre o material ejetado pela supernova e o material que já se encontrava a rodear a estrela.

Informações adicionais

Este trabalho foi descrito num artigo científico intitulado “Rapid formation of large dust grains in the luminous supernova SN 2010jl”, de C. Gall et al., que será publicado online na revista Nature a 9 de julho de 2014.

A equipa é composta por Christa Gall (Departmento de Física e Astronomia, Universidade de Aarhus, Dinamarca; Centro de Cosmologia Escura, Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca; Observational Cosmology Lab, NASA Goddard Space Flight Center, EUA), Jens Hjorth (Centro de Cosmologia Escura, Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca), Darach Watson (Centro de Cosmologia Escura, Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca), Eli Dwek (Observational Cosmology Lab, NASA Goddard Space Flight Center, EUA), Justyn R. Maund (Astrophysics Research Centre School of Mathematics and Physics Queen’s University Belfast, RU; Centro de Cosmologia Escura, Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca), Ori Fox (Department of Astronomy, University of California, Berkeley, EUA), Giorgos Leloudas (Centro Oskar Klein, Departamento de Física, Universidade de Estocolmo, Suécia; Centro de Cosmologia Escura, Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca), Daniele Malesani (Centro de Cosmologia Escura, Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca) e Avril C. Day-Jones (Departamento de Astronomia, Universidad de Chile, Chile).

O ESO é a mais importante organização europeia intergovernamental para a investigação em astronomia e é o observatório astronómico mais produtivo do mundo. O ESO é  financiado por 15 países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia e Suíça. O ESO destaca-se por levar a cabo um programa de trabalhos ambicioso, focado na concepção, construção e funcionamento de observatórios astronómicos terrestres de ponta, que possibilitam aos astrónomos importantes descobertas científicas. O ESO também tem um papel importante na promoção e organização de cooperação na investigação astronómica. O ESO mantém em funcionamento três observatórios de ponta, no Chile: La Silla, Paranal e Chajnantor. No Paranal, o ESO opera  o Very Large Telescope, o observatório astronómico óptico mais avançado do mundo e dois telescópios de rastreio. O VISTA, o maior telescópio de rastreio do mundo que trabalha no infravermelho e o VLT Survey Telescope, o maior telescópio concebido exclusivamente para mapear os céus no visível. O ESO é o parceiro europeu do revolucionário telescópio  ALMA, o maior projeto astronómico que existe atualmente. O ESO encontra-se a planear o European Extremely Large Telescope, E-ELT, um telescópio de 39 metros que observará na banda do visível e do infravermelho próximo. O E-ELT será “o maior olho do mundo virado para o céu”.

Links

Contactos

Margarida Serote
ESO Science Outreach Network
Portugal
Telm.: 964951692
Email: eson-portugal@eso.org

Christa Gall
Aarhus University
Denmark
Telm.: +45 53 66 20 18
Email: cgall@phys.au.dk

Jens Hjorth
Dark Cosmology Centre, Niels Bohr Institute, University of Copenhagen
Copenhagen, Denmark
Email: jens@dark-cosmology.dk

Richard Hook
ESO education and Public Outreach Department
Garching bei München, Germany

Tel.: +49 89 3200 6655
Email: rhook@eso.org

Este texto é a tradução da Nota de Imprensa do ESO eso1421, cortesia do ESON, uma rede de pessoas nos Países Membros do ESO, que servem como pontos de contacto local com os meios de comunicação social, em ligação com os desenvolvimentos do ESO. A representante do nodo português é Margarida Serote.

Sobre a Nota de Imprensa

Nº da Notícia:eso1421pt
Tipo:• Milky Way : Star : Evolutionary Stage : Supernova
Facility:Very Large Telescope
Science data:2014Natur.511..326G

Imagens

Impressão artística da formação de poeira em torno de uma explosão de supernova
Impressão artística da formação de poeira em torno de uma explosão de supernova
A galáxia anã UGC 5189A, local da supernova SN 2010jl
A galáxia anã UGC 5189A, local da supernova SN 2010jl
A galáxia anã UGC 5189A, local da supernova SN 2010jl (anotada)
A galáxia anã UGC 5189A, local da supernova SN 2010jl (anotada)

Veja também